Domingo, Fevereiro 27, 2005

«TEMPO,TEMPO,TEMPO,TEMPO»
Não!
Não pode mais meu coração
Viver assim dilacerado
Escravizado a uma ilusão
Que é só desilusão
Ah, não seja a vida sempre assim
Como um luar desesperado
A derramar melancolia em mim
Poesia em mim
Vai, triste canção, sai do meu peito
E semeia a emoção
Que chora dentro do meu coração
Coração
[Modinha -Vinicius e Jobim]
Sim, ouvi dizer que a «Modinha» abriu a noite de quinta, no Canecão. E ouvi dizer que foi Vinicius, outra vez solto na largueza das noites cariocas, e que a garganta era a de Bethânia, e que os acordes do piano luziram mais tropicais às alvas mãos lusas da Maria João Pires. Ouvi... Ouvi, sim. E depois lembrei-me de Botafogo, lá para os lados da Zona Sul. E, então pensei em ti. Na novidade da noite gelada. E foi aí, na evocação à distância de uma coisa bela, que um vago afago veio erguer-me o pensamento e salvar-me da memória.
Sinhá Menina|6:15 AM|0
Terça-feira, Fevereiro 22, 2005

MORTE SÚBITA
Tinha sido noite mas ia amanhecer. Como se o breu que durava não tivesse mais gravidade que a evidência óbvia das noites se demorarem - um pouco mais do que estamos acostumados - durante o Inverno. Mas então, ergueu-se do chão uma qualquer fatalidade que mais nada fazia prever, um colapso qualquer, breve e bárbaro, e aconteceu que tudo ficou ali mesmo: estancado na primeira sargeta do passeio, sem que sequer se vislumbrasse o mais vago risco de hemorragia
a posteriori.
Sinhá Menina|8:29 AM|0

ESPINAL MEDULA
Vivia a te buscar
Porque pensando em ti
Corria contra o tempo
Eu descartava os dias
Em que não te vi
Como de um filme
A acção que não valeu
Rodava as horas para trás
Roubava um pouquinho
E ajeitava o meu caminho
Para encostar no teu
Subia na montanha
Não como anda um corpo
Mas um sentimento
Eu surpreendia o sol
Antes do sol raiar
Saltava as noites
Sem me refazer
E pela porta de trás
Da casa vazia
Eu ingressaria
E te veria
Confusa por me ver
Chegando assim
Mil dias antes de te conhecer*
(*) «Valsa Brasileira» de Edu Lobo e Chico Buarque
Por cima do tempo me coloco, para que nada ensombre os raios claros da manhã que por toda a noite segui pedindo que viessem, que trouxessem consigo claridade ao foco e uma lupa sem melindre para guiar o olho jovem e lhe compensar qualquer míopia transcrita ao cromossoma das eras. E no compasso lento do dia rompendo, nem potes de tinta fresca, nem esboço de rodopio no Grande Salão!... Nem rasto de água, nem flor de igarapé, nem boto na correnteza, nem capivara na mata. Só este círculo rasgado que o vôo do milhafre veio deixar aquém das nuvens pardas, no lugar onde meu coração costumava se aninhar amando sem resguardo cada pressentido sinal vindo por rumo Sul. Antes do desespero. Antes do azedo das dúvidas te fazer vir morder-me primeiro, e perguntar depois. Antes de eu voltar a me recordar de toda a violência que pode acontecer no lugar do amor e do quão pesada pode se tornar a mão que um dia nos afagou.
(...)
Chegam a onde estou os gritos da multidão exultando nas ruas e invadindo as praças. Sugiro que levem minha alegria junto com seus gritos, meu contentamento junto com seus vivas, porque hoje eu não posso: perdi a voz e fiquei muda de repente. Uma machada só e cortaram-me a seiva por onde me alimentava e respirava. E quando por fim me faltaram as forças, senti tombar-se-me a testa e escorregaram-me os pulsos. Peço, pois, que levem minha esperança dentro da sua crença. Só não me peçam para celebrar. É que hoje não consigo iludir esta sensação de que se perdeu de mim a razão principal da vitória.
Sinhá Menina|4:44 AM|1
Domingo, Fevereiro 13, 2005

«DANDARA» II
É dando espinho, é dando amor, é dando
Dandara, Dandara, Dandara
Dando carinho, dor e flor, é dando
Dandara, Dandara, Dandara
É flor que brota em grota
Em greta, em grota, em gruta
Ingrata, o dedo espeta
E grita, berra, braba, forte, mata
Dandara
Bonita, bárbara, felina, flor do gravatá
Vibra o punhal de prata!
Vibra o punhal de prata!
Vibra o punhal de prata!
E ainda assim tão terna
Tão ternamente rara
A flor do gravatá
Medra na pedra
Na pedra se escancara
Dandara, Dandara, Dandara
... Ainda «Dandara», ou "A Flor do Gravatá": ... porque nenhuma Dandara é verdadeiramente só... porque contra qualquer precipitação do olho nú ou do juízo desavisado, existem (sim!) gémeas metades pelos rebordos do mundo. Mesmo que entre mares, tresmalhadas na deriva lenta e incerta dos continentes. Elas existem: as Dandaras... as metades gémeas, gomos siameses da laranja indivizível... As Flores do Gravatá. Existem, e isso é tudo o que basta para lhes vingar vazios, lhes poupar desesperos vãos, lhes compensar moínhas e pelejares. Existem, e é quanto importa para que a raça não lhes morra com a solidão.
[Essa «Dandara» tem letra de Gilberto Gil e Waly Salomão, e apesar de nessa época os anos serem ainda demasiado verdes, creio que foi composta para o filme Quilombo. Imagino que estejamos a falar de 1983, com o devido perdão se acaso a memória me atraiçoar. ]
Sinhá Menina|4:59 AM|0
Sábado, Fevereiro 12, 2005

SÃO BONITAS AS CANÇÕES...
Mesmo que os cantores
sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa,
são bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
e os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim: você nasceu para mim,
você nasceu para mim
Mesmo que você feche os ouvidos
e as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
me leve até o fim, me leve até o fim
Mesmo que os romances
sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa,
são bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
seus amores serão bons(*)
(...)
Podem sim, os Poetas ser miseráveis e os Banditos ter um choro seu na dobra da canção. Têm sim, uma teima que é só sua, um querer obstinado entre o raso do copo e o equilíbrio da manhã rompendo. E têm arroubos e deleites, trejeitos de cego e cancioneiro. Eles têm!... um amar mais rouco, um pedir mais fundo. E sabem, sim!... Sabem como só eles sabem, destilar o fel em mel, ofegar janelas e alçapões, verter pelos poros e brotar dos avessos a ordem limpa das coisas esquecidas.
(*) Sublime «Choro Bandido» - escrito a mãos pares com Chico Buarque - que escuto esta noite, dedilhado por Edu Lobo na penumbra do Grande Auditório do Centro Cultural de Belém. É a primeira vez que a Velha Praça do Império se digna convocar aos serões dos seus salões, o Trovador das Suavidades trauteadas pelo correr dos anos. Aplaudo de pé: em boa hora nos chega, enfim, quem há muito era benvindo!
Sinhá Menina|11:59 PM|0
Quarta-feira, Fevereiro 09, 2005

QUARTA-FEIRA DE CINZAS
Tem mais samba no encontro que na espera
Tem mais samba a maldade que a ferida
Tem mais samba no porto que na vela
Tem mais samba o perdao que a despedida
Tem mais samba nas mãos do que nos olhos
Tem mais samba no homem que tabalha
Tem mais samba no som que vem da rua
Tem mais samba no peito de quem chora
Tem mais samba no pranto de quem vê
Que o bom samba não tem lugar nem hora (...)
[Os versos são do Chico Buarque de Holanda e, depois, terminam assim: «(...)O coração de fora / Samba sem querer / Vem que passa / Teu sofrer / Se todo mundo sambasse / Seria tão fácil viver». Esqueci-me do nome da canção: ficaram só os versos na memória... ]
Sinhá Menina|9:24 AM|0
Terça-feira, Fevereiro 08, 2005

«DANDARA»
Ela tem nome de mulher guerreira
E se veste de um jeito que só ela
Ela vive entre o aqui e o alheio
As meninas não gostam muito dela
Ela tem um tribal no tornozelo
E na nuca adormece uma serpente
O que faz ela ser quase um segredo
É ser ela assim tão transparente
Ela é livre e ser livre a faz brilhar
Ela é filha da terra, céu e mar
Dandara
Ela faz mechas claras nos cabelos
E caminha na areia pelo raso
Eu procuro saber os seus roteiros
Pra fingir que a encontro por acaso
Ela fala num celular vermelho
Com amigos e com seu namorado
Ela tem perto dela o mundo inteiro
E à volta outro mundo admirado
Ela é livre e ser livre a faz brilhar
Ela é filha da terra, céu e mar
Dandara
[Tributo a Ivan Lins, com letra de Francisco Bosco, filho de João, na voz dela, de Simone]
Sim, Lobas Grandes costumam ver dentro dos olhos, dizem por aí... E sei que vêem, sim. Sei que não mente a sabedoria popular: Lobas Crescidas espreitam os cantos ocultos no peito da gente e reviram os fundos ao coração num só lampejo. É quanto lhes basta, ou não seriam o que são: Lobas. Preciso eu curvar a vénia para te consentir aquilo que já pressentiste tão certeira, afinal?! Tanto melhor, então! Fiquemos assim. Tal e qual estamos. Adivinhadas apenas.
(...)
Entende, Senhora, que por mais doce que seja o canto da Cigarra no meu ouvido, em tempo de léguas, silêncio e frio, ele é tão só um brando acalanto às réstias da minha vaidade demasiado esquecida. Porque, Senhora, a realidade é que nem o fascínio desse canto, verdadeiramente me atenta, a mim que persisto paralisada: incondicionalmente rendida ao Teu encanto hoje sempre tão ausente, e ainda assim tão assente, tão presente. Sempre tão irremediavelmente presente!...
Sinhá Menina|5:23 AM|0
Segunda-feira, Fevereiro 07, 2005

«NÃO DEIXE O SAMBA MORRER»...
Mangueira
Teu cenário é uma beleza
Que a natureza criou...
Vista assim do alto
Mais parece um céu no chão
Sei lá
Em Mangueira a poesia
Feito um mar se alastrou
E a beleza do lugar
Pra se entender
Tem que se achar
Que a vida não é só isso que se vê
É um pouco mais
Que os olhos não conseguem perceber
E as mãos não ousam tocar
E os pés recusam pisar
Sei lá, não sei
Sei lá, não sei
Não sei se toda a beleza
De que lhes falo
Em Mangueira a poesia
Num sobe-desce constante
Anda descalça ensinando
Um modo novo da gente viver
De pensar e sonhar, de sofrer
Sei lá não sei
Sei lá não sei não
A Mangueira é tão grande
Que nem cabe inspiração
[«Sei Lá, Mangueira»
Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho]
Sinhá Menina|6:15 PM|0
Sábado, Fevereiro 05, 2005

... SOU MANGUEIRA, Ô!
Sinhá Menina|1:31 PM|0
Sexta-feira, Fevereiro 04, 2005

AQUI, SENHORA! AQUI
Vens por mim com a mesma e única lei de sempre. Ordenas que vá e mandas buscar-me com a urgência das coisas precisas. Então vem, Senhora! Leva-me a ti mais uma vez. Aponta-me um bico de pássaro e carrega-me para trás do vento Sul. Conheço a lei, Senhora: chegar-te descalça, parar diante do olho amarelo da Grande Loba Faminta, suficientemente nua para receber de ti penas e cocacares, guizos e balangandãs, caneleiras de cunhantã... eu!... Princesa com uma fome igual à tua, cria em berço de Norte frio, chegada a ti Senhora, para ser índia albina dos teus atabaques, tua Menina e teu corso, teu desfile e acalanto, para ser Raínha da bateria no País do Teu Carnaval.
Sinhá Menina|1:49 PM|0